Por João Gabriel Toledo Medeiros
Hoje perguntei a um aluno se ele tinha ido à festa que os colegas comentavam com empolgação no corredor. Ele respondeu, sem hesitar, um “não” seco — e, depois de um breve silêncio, completou: “eu não fui convidado”.
Aquela frase caiu no ar como uma pedra num lago calmo. Não pelo drama explícito, mas pela naturalidade com que foi dita. Há dores que se acostumam a morar na garganta, e o corpo aprende a conviver com elas como quem abriga um hóspede indesejado.
Continuei a conversa, e ele confessou que não se sente parte dos “grupos populares” da escola. Senti um nó de empatia imediata. Aquela sensação de estar fora do círculo luminoso, onde os risos são sempre compartilhados e as fotos sempre têm alguém abraçando alguém. A periferia social da juventude é um território árido — e, ironicamente, é ali que muitos aprendem, pela primeira vez, o que é exclusão.
Enquanto ele falava, lembrei do meu próprio tempo de graduação. Do etarismo disfarçado de “brincadeira” quando entrei na enfermagem mais velho que a média. Dos risinhos sutis, dos olhares que diziam “não pertence”. Há sempre um grupo que decide quem é “legal” e quem será o convidado invisível. E o mais perverso: eles se acham do bem. O preconceito, hoje, usa perfume francês e discurso inclusivo.
Escolas, universidades, repartições — são todas microversões de uma mesma selva: a do pertencimento condicionado. Gente que prega empatia nos slides de PowerPoint, mas pratica exclusão nos bastidores. Gente que fala de saúde mental enquanto intoxica o ambiente com fofocas, julgamentos e “panelinhas” tão apertadas que não cabem novos nomes.
No fim, percebo que a maior doença social talvez não seja a falta de acolhimento, mas o prazer mórbido de isolar o outro. Há algo de sadismo mascarado em cada exclusão — uma forma elegante de dizer “você não é suficiente”. E é curioso: quem exclui, invariavelmente, tem medo de ser o próximo excluído.
Olhei para meu aluno e pensei que talvez o mais importante não fosse consolá-lo, mas lembrá-lo de que a verdadeira festa não acontece nos pátios da popularidade. Ela acontece dentro de quem se recusa a virar cópia para ser aceito.
E, convenhamos, há convites que não recebemos por sorte divina. Alguns lugares são tão intoxicados que, se curassem, o remédio viria com bula e aviso: “uso externo — evite contato prolongado”.

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