Arquivo de Uncategorized - João Gabriel Toledo Medeiros https://jgtmedeiros.com.br/category/uncategorized/ My WordPress Blog Thu, 06 Nov 2025 22:29:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 Quando clonam a polícia https://jgtmedeiros.com.br/quando-clonam-a-policia/ https://jgtmedeiros.com.br/quando-clonam-a-policia/#respond Thu, 06 Nov 2025 22:29:01 +0000 https://jgtmedeiros.com.br/?p=60 Por João Gabriel Toledo Medeiros Hoje cedo, no rádio, anunciaram que golpistas clonaram a página do concurso da Polícia Civil do RS. Fiquei olhando para o meu café como quem observa um cofre aberto: se até a casa da autoridade vira fantasia de carnaval em HTML, que senha nos resta? A gente cresceu aprendendo a […]

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Por João Gabriel Toledo Medeiros

Hoje cedo, no rádio, anunciaram que golpistas clonaram a página do concurso da Polícia Civil do RS. Fiquei olhando para o meu café como quem observa um cofre aberto: se até a casa da autoridade vira fantasia de carnaval em HTML, que senha nos resta?

A gente cresceu aprendendo a reconhecer sinais de confiança. Antigamente eram distintivos, carimbos, timbres, selos que brilhavam como sol de meio-dia. Online, o brasão virou favicon e o apito do guarda foi substituído por um cadeadinho na barra do navegador. A liturgia do Estado comprimida em 16 por 16 pixels. A pompa do “você está seguro” agora cabe num ícone que qualquer aprendiz de design baixa em banco de imagens.

Não é exatamente novidade que falsários existam. Já houve decretos adulterados, cartas apócrifas, moedas batidas longe da Casa da Moeda. A diferença é a velocidade: antes, era preciso uma oficina inteira para fabricar uma mentira com verniz de verdade; hoje, basta um template, um domínio com hífen a mais e um anúncio direcionado. O truque ganha escala, e a fila da esperança — aquela da estabilidade, da carreira, do contracheque pontual — vira banquete para quem sabe temperar promessas com urgência.

Nós, por nossa vez, colaboramos com o milagre da duplicação. Não por maldade, mas por atalhos que o cérebro adora: pressa, cansaço, vontade de que dê certo. “Concordo com os termos” sem ler, “aceito todos os cookies” como quem come doce antes do almoço. Quando o desejo encontra um site bonito, o risco assina presença. É humano: precisamos crer em alguma coisa para atravessar o dia. E nada é tão crível quanto um layout que parece oficial e uma vaga que parece feita para “você, concurseiro”.

Há um detalhe quase poético — daqueles que só percebe quem anda devagar na calçada. As instituições vivem de rituais. Uniforme, linguagem, brasão, formulário, prazo. Quando o golpista copia tudo isso, não está só replicando pixels; está alugando, por algumas horas, a legitimidade alheia. É um teatro. O palco é o navegador, a plateia somos nós, e a peça chama-se “Entre com seus dados aqui”. No final, não tem aplauso: só o barulho do nosso próprio silêncio quando percebemos que não havia cortina, nem bilheteria, nem saída de emergência.

Daria para resolver com tecnologia? Em parte. Captcha que pergunta quantos hidrantes aparecem, verificação em duas etapas, QR code com assinatura, carimbo digital do carimbo digital. Tudo ajuda. Mas, no fundo, a defesa mais antiga — a mesma que sua avó usava no mercadinho — segue valendo: confirmar pelo outro canal, desconfiar do desconto incrível, perguntar duas vezes, proteger o número do cartão como se fosse a receita do melhor pastel da cidade. A virtude menos glamourosa, aquela que poucos colocam no currículo, continua sendo a que mais salva: demora. Demorar para clicar, demorar para pagar, demorar para acreditar. É uma lentidão ativa, quase um esporte de resistência.

Penso no paradoxo: querem clonar a polícia, não para virar polícia, mas para que nós viremos multidão obediente. É a coreografia da era: copiam símbolos para que a gente doe substância — dados, dinheiro, tempo. Talvez a pergunta não seja “o que sobra para nós mortais?”, mas “o que não podem copiar?”. Não dá para copiar o incômodo. O arrepio que diz “tem algo fora do lugar”. O senso de proporção que equaliza o volume do desejo com o da prudência. O hábito quase artesanal de pedir referência, de ligar para o número oficial, de conferir o domínio e perceber que o .gov foi trocado por um .gouv com sotaque de truque.

Talvez a resposta esteja num pequeno gesto civilizatório: reinstalar o “desconfiômetro” como padrão de fábrica. Não é cinismo; é higiene. Igual lavar as mãos: você não faz por achar o mundo mal-intencionado, faz porque sabe que o mundo tem camadas invisíveis. Entre o anúncio e o boleto, um gole de calma. Entre a vaga perfeita e o “pague agora”, uma visita ao site que termina em “rs.gov.br”. Entre a vontade de resolver a vida e o clique impulsivo, um telefonema. O trambique corre, mas a nossa pressa corre mais; se a gente atrasar um pouco, talvez ele não alcance.

No fim, fiquei com vontade de inventar um carimbo para as coisas corriqueiras: “Autenticado pela paciência do interessado”. Eu colocaria em cima da xícara, no e-mail que envio, na conversa do elevador. Não para transformar a vida numa alfândega, mas para lembrar que, diante do mundo que copia tão bem, ainda existe um gesto inimitável: a decisão de só avançar quando a confiança não for figurino, e sim pele. Mesmo que clonem brasões, páginas e concursos, há um território onde falsificador nenhum entra — o tempo que damos às coisas antes de chamá-las de verdade.

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Quando a juventude me devolveu a política https://jgtmedeiros.com.br/quando-a-juventude-me-devolveu-a-politica/ https://jgtmedeiros.com.br/quando-a-juventude-me-devolveu-a-politica/#respond Thu, 06 Nov 2025 22:26:55 +0000 https://jgtmedeiros.com.br/?p=58 Por João Gabriel Toledo Medeiros Voltar às salas de aula com adolescentes foi como abrir uma janela esquecida dentro de mim. O ar que entrou era o mesmo de quando eu acreditava, de verdade, que a educação podia transformar o mundo — e talvez ainda possa. Há algo de profundamente regenerador em estar entre jovens: […]

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Por João Gabriel Toledo Medeiros

Voltar às salas de aula com adolescentes foi como abrir uma janela esquecida dentro de mim. O ar que entrou era o mesmo de quando eu acreditava, de verdade, que a educação podia transformar o mundo — e talvez ainda possa. Há algo de profundamente regenerador em estar entre jovens: eles me devolvem perguntas que o tempo e a academia haviam calado, me obrigam a repensar o país, as injustiças, as promessas de uma sociedade que insiste em se equilibrar sobre o abismo.

Sou um homem, gay, socialista, e professor de História. Durante muito tempo, vivi como se fosse possível ser apenas cientista — metódico, objetivo, neutro —, mas ensinar História para adolescentes me lembrou que a neutralidade é uma miragem confortável. A cada aula, a cada olhar inquieto que me pergunta por que o mundo é tão desigual, percebo que ser educador é, inevitavelmente, um ato político.

E o mundo lá fora parece ecoar essa pulsação. A recente eleição do novo prefeito de Nova Iorque — um jovem, socialista, muçulmano, africano e imigrante — é mais do que um fato político: é o sintoma de um inconsciente coletivo que volta a sonhar. É a prova de que, mesmo entre os destroços do desencanto, ainda há espaço para a utopia. Os alunos comentam isso em sala, conectando realidades tão distantes com a naturalidade de quem nasceu global, e eu percebo que a juventude tem essa força: a de acreditar que as fronteiras podem ser apenas linhas imaginárias.

Na efervescência de uma escola viva, as ideias se chocam, se contradizem, se fecundam. E entre os ruídos do corredor, percebo algo que a enfermagem — minha outra casa — também me ensinou: cuidar é sempre um ato de resistência. Ensinar História e cuidar de corpos vulneráveis são gestos que partem do mesmo lugar — o desejo de restaurar dignidades.

Hoje, ao sair da sala e ouvir o burburinho dos intervalos, penso que talvez o futuro esteja ali, em cada pergunta ingênua e revolucionária. A juventude me devolveu a política, mas também a fé. Não aquela que se prega em púlpitos, mas a que se costura no cotidiano: a crença de que ainda é possível curar o mundo, começando pela sala de aula.

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O Convite que Nunca Chega https://jgtmedeiros.com.br/o-convite-que-nunca-chega/ https://jgtmedeiros.com.br/o-convite-que-nunca-chega/#respond Thu, 06 Nov 2025 22:24:46 +0000 https://jgtmedeiros.com.br/?p=55 Por João Gabriel Toledo Medeiros Hoje perguntei a um aluno se ele tinha ido à festa que os colegas comentavam com empolgação no corredor. Ele respondeu, sem hesitar, um “não” seco — e, depois de um breve silêncio, completou: “eu não fui convidado”.Aquela frase caiu no ar como uma pedra num lago calmo. Não pelo […]

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Por João Gabriel Toledo Medeiros

Hoje perguntei a um aluno se ele tinha ido à festa que os colegas comentavam com empolgação no corredor. Ele respondeu, sem hesitar, um “não” seco — e, depois de um breve silêncio, completou: “eu não fui convidado”.
Aquela frase caiu no ar como uma pedra num lago calmo. Não pelo drama explícito, mas pela naturalidade com que foi dita. Há dores que se acostumam a morar na garganta, e o corpo aprende a conviver com elas como quem abriga um hóspede indesejado.

Continuei a conversa, e ele confessou que não se sente parte dos “grupos populares” da escola. Senti um nó de empatia imediata. Aquela sensação de estar fora do círculo luminoso, onde os risos são sempre compartilhados e as fotos sempre têm alguém abraçando alguém. A periferia social da juventude é um território árido — e, ironicamente, é ali que muitos aprendem, pela primeira vez, o que é exclusão.

Enquanto ele falava, lembrei do meu próprio tempo de graduação. Do etarismo disfarçado de “brincadeira” quando entrei na enfermagem mais velho que a média. Dos risinhos sutis, dos olhares que diziam “não pertence”. Há sempre um grupo que decide quem é “legal” e quem será o convidado invisível. E o mais perverso: eles se acham do bem. O preconceito, hoje, usa perfume francês e discurso inclusivo.

Escolas, universidades, repartições — são todas microversões de uma mesma selva: a do pertencimento condicionado. Gente que prega empatia nos slides de PowerPoint, mas pratica exclusão nos bastidores. Gente que fala de saúde mental enquanto intoxica o ambiente com fofocas, julgamentos e “panelinhas” tão apertadas que não cabem novos nomes.

No fim, percebo que a maior doença social talvez não seja a falta de acolhimento, mas o prazer mórbido de isolar o outro. Há algo de sadismo mascarado em cada exclusão — uma forma elegante de dizer “você não é suficiente”. E é curioso: quem exclui, invariavelmente, tem medo de ser o próximo excluído.

Olhei para meu aluno e pensei que talvez o mais importante não fosse consolá-lo, mas lembrá-lo de que a verdadeira festa não acontece nos pátios da popularidade. Ela acontece dentro de quem se recusa a virar cópia para ser aceito.

E, convenhamos, há convites que não recebemos por sorte divina. Alguns lugares são tão intoxicados que, se curassem, o remédio viria com bula e aviso: “uso externo — evite contato prolongado”.

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