Por João Gabriel Toledo Medeiros

Voltar às salas de aula com adolescentes foi como abrir uma janela esquecida dentro de mim. O ar que entrou era o mesmo de quando eu acreditava, de verdade, que a educação podia transformar o mundo — e talvez ainda possa. Há algo de profundamente regenerador em estar entre jovens: eles me devolvem perguntas que o tempo e a academia haviam calado, me obrigam a repensar o país, as injustiças, as promessas de uma sociedade que insiste em se equilibrar sobre o abismo.

Sou um homem, gay, socialista, e professor de História. Durante muito tempo, vivi como se fosse possível ser apenas cientista — metódico, objetivo, neutro —, mas ensinar História para adolescentes me lembrou que a neutralidade é uma miragem confortável. A cada aula, a cada olhar inquieto que me pergunta por que o mundo é tão desigual, percebo que ser educador é, inevitavelmente, um ato político.

E o mundo lá fora parece ecoar essa pulsação. A recente eleição do novo prefeito de Nova Iorque — um jovem, socialista, muçulmano, africano e imigrante — é mais do que um fato político: é o sintoma de um inconsciente coletivo que volta a sonhar. É a prova de que, mesmo entre os destroços do desencanto, ainda há espaço para a utopia. Os alunos comentam isso em sala, conectando realidades tão distantes com a naturalidade de quem nasceu global, e eu percebo que a juventude tem essa força: a de acreditar que as fronteiras podem ser apenas linhas imaginárias.

Na efervescência de uma escola viva, as ideias se chocam, se contradizem, se fecundam. E entre os ruídos do corredor, percebo algo que a enfermagem — minha outra casa — também me ensinou: cuidar é sempre um ato de resistência. Ensinar História e cuidar de corpos vulneráveis são gestos que partem do mesmo lugar — o desejo de restaurar dignidades.

Hoje, ao sair da sala e ouvir o burburinho dos intervalos, penso que talvez o futuro esteja ali, em cada pergunta ingênua e revolucionária. A juventude me devolveu a política, mas também a fé. Não aquela que se prega em púlpitos, mas a que se costura no cotidiano: a crença de que ainda é possível curar o mundo, começando pela sala de aula.


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